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domingo, 12 de setembro de 2010

"(...)Claro que você não tem culpa, coração, 
caímos exatamente na mesma ratoeira, 
a única diferença é que você pensa que pode escapar, 
e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, 
me passa o cigarro, não, não estou desesperada, 
não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, 
estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, 
ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, 
gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo 
e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, a
bsolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, 
depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina 
ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer 
choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, 
não vou tomar nenhuma medida drástica, 
a não ser continuar, 
tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”
"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? 
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, 
quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? 
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, 
lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia 
–qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, 
mesmo sem saber por quê. 
Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
Eu prefiro viver a ilusão do quase, 
quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento 
vou levar comigo uma coisa bonita. 
Quando eu "quase" tenho certeza 
que insistir naquilo vai me fazer sofrer, 
que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, 
que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, 
eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! 
Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, 
que com a certeza de ter acabado em dor. 
Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”
“Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, não nesta cidade escura, 
não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? 
Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, 
já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, 
já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, 
Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, 
eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando 
perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, 
enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão 
apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, 
a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, 
teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. 
As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, 
minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, 
ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, 
e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo?”
Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chhuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ... 
( In Dispersos) 

Extremos da paixão

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano,e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó.O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya,ilusão,passatempo.E exigimos o terno do perecível,loucos.
Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolosem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

(in Pequenas Epifanias)



Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago (RS). Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas (SP). Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris.Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo.

Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu
 Bien Loin de Marienbad. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996.
Bibliografia:
- Inventário do Irremediável, contos. Prêmio Fernando Chinaglia da UBE (União Brasileira de Escritores); Rio Grande do Sul: Movimento, 1970; 2ª ed. Sulina, 1995 (com o título alterado para Inventário do Ir-remediável).

- Limite Branco, romance. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971; 2ª ed. Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª ed., Siciliano, 1992.

- O Ovo Apunhalado, contos. Rio Grande do Sul: Globo, 1975; Rio de Janeiro: 2ª edição, Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª edição, Siciliano, 1992.

- Pedras de Calcutá, contos. São Paulo: Alfa-Omega, 1977; 2 ed., Cia. das Letras, 1995.

- Morangos Mofados, contos. São Paulo: Brasiliense, 1982; 9 ed. Cia. das Letras, 1995. Reeditado pela Agir - Rio, 2005.

- Triângulo das Águas, novelas. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983; São Paulo: 2 edição Siciliano, 1993.

- As Frangas, novela infanto-juvenil. Medalha Altamente Recomendável Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Rio de Janeiro: Globo, 1988.

- Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

- A Maldição do Vale Negro, peça teatral. Prêmio Molière de Air France para dramaturgia nacional. Rio Grande do Sul: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro), 1988.

- Onde Andará Dulce Veiga?, romance. Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) para romance. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

- Bien Loin de Marienbad, novela. Paris, França Arcane 17, 1994.

- Ovelhas Negras, contos. Rio Grande do Sul: 2 ed. Sulina, 1995.

- Mel & Girassóis (Antologia)

- Estranhos Estrangeiros, contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

- Teatro Completo, 1997
Teatro:
- O Homem e a Mancha

- Zona Contaminada
Tradução:
- A Arte da Guerra, de Sun Tzu, 1995 (com Miriam Paglia).

A carta acima foi enviada pelo autor a seu grande amigo, o jornalista José Márcio Penido, e nela relata a criação do livro "Morangos mofados", fala de sua admiração por Clarice Lispector e Dalton Trevisan e estimula  o amigo a escrever.

Extraído do livro citado, Editora Agir - Rio de Janeiro, 2005, pág. 152.


domingo, 5 de setembro de 2010

Hoje recebi este presente que me deixou muito feliz

SELO CASA AZUL DA LITERATURA‏

Recebi o seguinte e-mail do Marciano Vasques
Glorinha,
Oferto ao seu lindo blog o Selo "Casa Azul da Literatura", que certifica a promoção e a difusão da cultura entre os povos, que é o que você faz também. O selo Anexo, está também na faixa lateral fixa de CASA AZUL DA LITERATURA
http://www.casaazuldaliteratura.blogspot.com
Caso aceite o selo, assim que o postar, avise-me, para que o seu blog entre na lista, com link.
Um abraço de
Marciano Vasques
O selo é para o seu blog ARTE EM IMAGENS E POESIA
http://arteemimagensepoesias.blogspot.com/
Um abraço de
Marciano Vasques

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

PUBLIQUE UM COMENTÁRIO

As palavras da Katy tem sempre gosto de terra, que se fecunda, que gera... Tem sempre cheiro de mar, onde se mergulha, até se sentir perder o ar... Tem som de batuques e atabaques mas tb do gorjeio dos pássaros, e o gralhar das gaivotas em vôos a planar... Tem jeito de açoite mas tb de afago...é cheia de ambiguidade, tem os pés fincados a terra, tem cheiro de mato, de barro, de seiva das arvores...mas sabias suas palavras tb sabem voar...tem acima de tudo personalidade nordestina e tb brasileira. Sou fã dessa moça... Muito merecida a homenagem. Bjos as duas Erikah

Abro asas às palavras, mas não abro mão da minha criação. A criatividade aqui tem assinatura. Katyuscia Carvalho

Inquérito do Alumbramento

Qual a tua conotação do belo?
O que te suspira, o que te arregala?
O que te enxota para dentro da vida?
O que te exubera, o que te arrebata?
Que tipo de gesto te deixa perplexo?
O que te desenha um abismo na palma
[dos pés] p'ra que tu, animal
– tão inseto –
da terra das mãos
faça o incesto das asa
E que pássaro é tua espécie?
O que nesse mundo te espanta,
te espasma?
De que arrobos suspira o teu corpo?
Onde te inflama a pele?
- Em que ponto, em que polo? -
Em que poro arrepia tua alma?

Katyuscia Carvalho

HIBRIDISMO LINGUÍSTICO

Sou discípula das palavras subversivas
da língua insubmissa pela própria natureza
que não se dobra a doutrinas castradoras
nem cala a boca para as sentenças normativas.

Falo na língua que tem sangue nas veias
- que língua sem sangue ou sem pigmentação
não tem história: é língua-pálida, língua-amorfa!
E eu me pinto em dialetos da minha miscigeNAÇÃO.

Tenho na boca um idioma que dança,
que batuca, que se alegra e que se enfeita
com cocais, com colares, com sotaques
com as sílabas todas desta gente bra-si-lei-ra.

Katyuscia Carvalho

Quando o sol se põe em febre
queima o olhar claro da moça
Ofusca a força
Queda um fardo
E ela entardece na jovem sina

Sagrada a hora do sol-cadente
quando agradece o feno do dia
Veste um olhar – o seu mais solene
Junta as mãos
em ave-maria

Eu que hostilizo as ostentações
fico a saber onde o sol sereniza
É no colo da moça – singelo – da roça
para quem dia é hóstia
e altar horizonte
Katyuscia Carvalho
O que me arde na poesia
é essa forma de ser aura
a tocar em toda pele, em toda cor,
em toda arte, em toda parte,
em toda ânsia, em toda dor.

O que amo na poesia
é a sedutora rebeldia
de não ser de só palavra.
Vive em cio onde a beleza
se desprendeu de seus porões,
incasta, inculta, plebeia.

Salta certeira de tudo
que nos destroça em sensações;
joga-nos ao chão,
a beijar a agonia de uma flor.
Ou levita-nos até a asa
de um condor desesquecido.

Elegância de uma dama,
perfuma a sândalo e suor
se descalça e despenteia
para de clássica ser profana,
desprofética, tribal.

Poesia, a quem tem sede,
é um instinto animal
de querer abrir no mundo
alimento numa veia.

Katyuscia Carvalho

Uma canção lambe a noite caída d’um búzio à letra da tarde
a letra nascida da exaustão

Quando a espera é tanta, embala-nos o cansaço a maré
Na rede, soltam-se os remos…

Há rendidos a trocar sonhos por salva-vidas
Sobreviventes à espera da ressaca nova

Seres que da vida vivem sua volta
qual mulheres de pescadores e suas rendas e lendas

marcando encontro com náufragos
com os que arrastam o hoje tardio até a borda

Marulhos de semprespera, seixos de contartempo
e uma garrafa a aportar para os que encalham no cais

O que espera dos seus a vida?
Secarem os dias? Ou morrerem afogados de alto-amar?
Katyuscia Carvalho

«Uso a palavra como quem a veste; desnuda-se de vestes; traduz-se; simplifica-se. Sempre pelo avesso para sentir o lado de dentro. E sempre sob a pele, para nunca tatear o que não toque um sentimento» [Katyuscia Carvalho]

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Uma poeta apaixonante Katyuscia Carvalho

Escrevo porque sofro de um quebranto: não canto! Seria o pedido que faria a uma cadente – ter cordas de harpa na voz. Mas não me beijaram-fulô-de-mandacaru os lábios. Um uirapuru não pousou na árvore genealógica do fruto que sou. [...] Assim, só me resta ter dedos de prosa com as palavras, e dedilhar umas linhas compoemando anseios. Ensaio movimentos que meu corpo ouve. E como um consolo que me deleita, puseram batuques africanos no meu peito. Fico sustenida até à aura quando um baque-virado de Maracatu me arritmia. Ou o som dos Caboclinhos, com suas preacas e pífanos me epifaniam. Mas é fato: meu fado é que eu não canto. Só escrevo escalas sem tom. Sem “o” dom. E danço – essa forma que achei para meu corpo cantar. [Katyuscia Carvalho]

Poesias  
http://katyuscia-carvalho.blogspot.com/
 
Imagens
fotos de Lauren Withrow 

sábado, 14 de agosto de 2010

A poesia romantica de ♥ Cíntia♥ Gasparetto

 

"Eu sou um ser totalmente passional.Sou movida pela emoção, pela paixão...tenho meus desatinos...Detesto coisas mais ou menos...Não sei conviver com pessoas mais ou menos...Não sei amar mais ou menos...Não me entrego de forma mais ou menos...Se você procura alguém coerente, sensata,politicamente correta, racional,cheia de moralismo... ESQUEÇA-ME!"

(Clarice Lispector)

  

Menina de palavras 

 

 http://menina-de-palavras.blogspot.com/

Poeta Cintia Gasparetto

(...)Gosto de pensar assim: se a gente faz o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica. Por isso, faço a minha sorte. Sou fiel ao que sinto. Aceito feliz quem eu sou. Não acho graça em quem não acha graça. Acho chato quem não se contradiz. Às vezes desejo mal. Sou humana. Sou quase normal. Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteira. Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar. Acho bonito quem tem orgulho de ser gente(...) (Fernanda Melo)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

"O tempo e a palavra são os mestres da transformação." Cio Nascimento

Para cultivar a rosa

O espinho
fino
em tua carne,
ela não quis
fazer entrar.
Pra que a rosa
delicada
se desarme,
é preciso
esperar
que o sol
se recolha
ao fim da tarde
e a noite
comece 
a se espalhar,
calma e plena
de possibilidades...
Pra que a rosa
delicada
se revele,
é preciso
em seu perfume
acreditar,
adentrar suavemente
o seu veludo,
e calmamente,
num instante fundo e mudo,
sem temores,
sem anúncios...
só amar.
Cio Nascimento

Canção da sabedoria

E eu


permaneço acordada
com os olhos para dentro...
Assisto à partida dos barcos
que navegam na tormenta
e entram na madrugada
sob canções de acalento...
E eu
permaneço calada,
com as mãos cheias de unguento...
Vejo as canções delicadas
provocarem revoadas

em meus tantos sentimentos...

Passam os dias e noites,
passam as dores de açoites,
passa a poeira do tempo,
e eu,
que vejo muito e quase nada,

contemplo as curvas da estrada

com os olhos para dentro.
Cio Nascimento

A Poesia de Cio Nascimento

Nasci em 3 de maio do ano que nunca terminou (1968), em Salvador, Bahia. Desde cedo a poesia habitou meus devaneios. Sou casada e resido em Brasília. Pedagoga especializada em Psicopedagogia, atualmente estudo Psicologia. Além disso, há tantos detalhes que é melhor falar em poesia...










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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ana Jácomo a poeta com alma perfumada


Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.