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quinta-feira, 16 de junho de 2011

De repente

E agora eu vou abraçar essas manhãs adormecidas com um olhar solar, corajoso e inteiro. Ninguém sabe mas, lá no fundo, eu tenho um mundo de delicadezas recém - nascidas que vezenquando enviam um de repente para salvar o dia. Todo o meu instante fala a língua dos recomeços e eu agradeço. Porque de repente é tempo bom e fresco feito de detalhes mágicos que Deus bordou com o formato especial da nossa esperança. Molde ágil e perfeito pro coração aflito. Ele sempre sabe o que traz e quando faz. Num instante abre as compotas e derrama aquele sorriso tão doce e bem aquecido que revela estações. O tempo vai deixando todas as coragens no meu peito e sabe, já sei nadar  nas suas repentinas ondas sem fazer doer tanto os braços, sem arder os olhos,  nem dosar os sonhos.

Porque de repente a gente percebe que bonito mesmo é habitar no olhar divino e caminhar nessas eternidades  que prometem mais, bem mais que o hoje.

(Priscila Rôde)

Priscila Rôde


Priscila é mais alma que corpo, coração que mente. Seu elemento é o Amor, seu ungüento é a palavra. (Fernanda F. Fraga)


quinta-feira, 19 de maio de 2011

RITA APOENA“… Encha o peito com mais de trezentos suspiros. Quando estiver bem levinho, solte as amarras e flutue.”





“Estou há vários capítulos olhando o nada. E o nada acontece. E o nada responde. E o nada floresce em amarelos invisíveis. Estas flores que não existem devem ter sido plantadas por algumas sementes do nada. Se você soubesse a dimensão das coisas que ainda não existem e que estão, no exato momento, amontoadas ao seu redor, você não conseguiria dar sequer um passo adiante. Às vezes, eu penso que Deus criou o mundo pelo mesmo motivo: sufocado por um vazio suplicante. Ou então, Deus criou os outros homens por não suportar as histórias em primeira pessoa. Mas o narrador foi embora e essa pessoa foi tudo o que sobrei agora…”
                                              -  Rita Apoena
“Não é que o mundo seja só ruim e triste.
É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais.
Quando uma pena flutua no ar por oito segundos
ou a menina abraça o seu grande amigo,
nenhum jornalista escreve a respeito.
Só os poetas o fazem.”
Rita Apoena
Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma
escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o
dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima
a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando
a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram
companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto… até que
amanheça.
"Sobre as estrelas


Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas. Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta esperança."



Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote“.
Rita Apoena
O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.

Rita Apoena
..Então você acha que eu, euzinha, vou deixar de amar ou levar abraços ou escrever uma cartinha colorida ou dar um presente e ligar no meio do nada ou amarrar nesta árvore um laço de fita ou esconder poemas em sua casa ou desenhar um mapa na minha barriga ou plantar um girassol na janela porque você já não me ama mais? E o que tenho eu a ver com isso, se você já não me ama mais? O amor que lhe dou não é seu, ele está antes para alegrar o mundo, para ver a sementeira empurrar os grãozinhos de terra e mostrar as petúnias. O amor que lhe dou pertence às petúnias e às begônias, ao desenho das nuvens voando ligeiras, aos sorrisos que espalho aos transeuntes, às folhas dos livros, às conversas delicadas e aos gestos de carinho. O amor que lhe dou nem a mim pertence mais.
(Rita Apoena)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sobre as conchas da mão


Toma o amor guardado entre as conchas da minha mão. Dentro delas ouvi as ondas quebrando-se em pedras e o espetáculo de um pequeno musgo nascido à beira de um raio de sol. Dentro delas, ouvi a terra aninhando sementes e plantas entrelaçando a ponta de suas raízes. Finas raízes tentando sustentar o mundo sob as placas de cimento. As placas de cimento, de onde germinam as casas e crescem as pessoas, entrelaçando a ponta de seus braços e o mais fundo de seus corpos pela noite escura. Dentro delas, ouvi o mundo inteiro tentando ser par... e ouvi a ponta de tuas asas tocando minhas costas nuas, teu instrumento de cordas e suspiros profundos.

Rita Apoena- Vivo tão intensamente o momento, que quase chego atrasada ao momento seguinte.”

A vida como você deixou de perceber. Poesia é o que ela faz. Singela é a abordagem. Fala da vida comum demodo incomum, como pessoa que enxerga uma vida extraordinária nas pequenas coisas do mundo. Aliás, nas coisas do mundo. Ou por outra, do Mundo, assim mesmo com M maiúsculo. Diz da pessoa comum o quedoutroes jamais ou poucas vezes disseram. Com a perspicácia de poeta. Quer dizer Poetisa. Vive os detalhes e fala bem de todos deles. Das pequenas coisas reporta fatos como as maiores preciosidades. Do botão que procura casa na fazenda latifúndio, dos cílios que recortam as lágrimas. Da vida como ela é e como a vida pode ser: Amorosa, brejeira, faceira, iluminada, mesmo nos cantinhos encobertos pelas poeiras marcianas. Não deixe de visitar, de ler, de tomar pileque e refrigério d'alma neste sítio que vai sendo grande a cada segundo. Um minuto e já será perene. Como tantos estão dizendo: se apaixone como nós! E, emprestando as palavras de Gonzaguinha para homenagear a poetisa: é bonita, é bonita e é bonita! Vá lá: